“Pêro de Alenquer avançou, a sua barba grisalha apontava como uma ameaça. Esta rebelião, que lhe trazia terríveis memórias, abalava-o neste momento decisivo, em que precisava de todas as suas forças mentais para se concentrar na sua missão e nesta opção revolucionária: a volta!

– Faça-se silêncio, e oiça-se, através da minha, a voz de Bartolomeu Dias. É a conselho dele que iremos cumprir a volta!

[…]

– Para atingir o cabo, temos imperativamente de percorrer caminho ao largo sem mais demoras para beneficiar dos ventos portantes, os alísios de nordeste que sopram ao largo. Depois de um amplo laço, a volta, rumaremos de novo direitos ao sul. Depois, mudando de bordo, rumo a leste, transporemos a ponta de África, levados pelos ventos de oeste dominantes…

– Mas nunca ninguém a deu, essa volta!

– Seremos então os primeiros! As nossas naus, mais pesadas e mais sólidas que as de Dias, permitem-no.

[…]

Em pé na ponte superior do castelo de popa, o mestre piloto Pêro de Alenquer contemplava, fascinado, o mar alto que a roda de proa da caravela abria sob a vela cevadeira desfraldada. […]

– O oceano é como um grande corpo vivo. Desde a antiguidade, os médicos gregos compreenderam a importância do sangue, essa corrente vital, que vai e volta. Passa-se o mesmo no oceano. Essas correntes e esses ventos que sopram contra nós ao longo das costas de África têm de se voltar algures ao largo, para regressarem à sua origem. E é aí que os devemos procurar; é preciso ousar navegar no mar alto!

Confiante na experiência do seu mestre piloto, Vasco da Gama ousou assim o que nunca antes fenícios, normandos, venezianos ou árabes haviam ousado. A navegação de alto mar, a milhares de milhas de qualquer terra. Às clássicas descobertas, realizadas ao longo das costas sempre à vista, sucediam-se os descobrimentos, no sentido mais lato de termo: a navegação oceânica, à escala planetária. Meses a fio de navegação sem escala e sem qualquer referência além dos astros, meses de angústia e de terror. Era necessário a estes homens uma coragem inaudita para se arriscarem assim a cumprir esse laço fantástico, cinco mil milhas marítimas, baseando-se exclusivamente na intuição do genial mestre piloto Pêro de Alenquer. Mais do que uma evolução tornada possível pelo aperfeiçoamento da arquitectura naval: uma revolução nas mentalidades.”

“O Segredo da Índia – A Viagem de Vasco da Gama” (romance), de Jean-Jacques Antier, edição “A Esfera dos Livros”, Fevereiro de 2007, pp. 103, 104, 105