Qui 10 Mai 2007
“– Sim, Pêro. Foi aí que tudo começou. Esse cabo rochoso de falésias negras e, por trás, esse outro cabo, o famoso Cabo de Sagres, qual frente de navio rasgando o mar, dura roda de proa da Europa de que somos a ponta extrema, abrindo-se para o oceano!
Sagres! Vasco da Gama revivia a descoberta de há quinze anos com o seu pai. O mestre piloto também vasculhava memórias antigas:
– Julgo ver errante a sombra do Infante D. Henrique, o Navegador.
– Conheceu-o, Pêro?
– Não tinha mais de treze anos quando ele morreu, mas sabia já tudo sobre essa personagem lendária, visionário de um mundo novo.
– Um estranho destino, Pêro! O terceiro filho de D. João I não sabia bem o que iria fazer da vida, já que não devia aceder ao trono de Portugal. A vida na corte entediava-o. Não sonhava senão com grandes espaços e descobertas. Os portugueses haviam transposto o estreito de Gibraltar, saltando para terras de África! O que empurrara o Infante D. Henrique para a sua sorte, sempre mais longe em terra estranha. Ao ocupar Ceuta, na margem africana do estreito, esse antro de piratas marroquinos que escumavam o Mediterrâneo ocidental, não desconfiava de que a sua vida iria soçobrar.
– Soçobrar é pouco, capitão!
– Em Ceuta, os portugueses, solidamente ancorados na sua cidadela, viram chegar de África caravanas pejadas de ouro, de marfim e de escravos negros. Outra revelação: interrogando os caravaneiros, o Infante D. Henrique ficou a saber de que deveria haver, a sul de África, nos confins desse imenso continente, uma passagem fazendo comunicar o Alântico com o grande oceano Índico.
– A Índia, capitão! O sonho acalentado há já dois séculos pelo relato de Marco Polo…
– Em vez de voltar para a corte de Lisboa, o Infante D. Henrique instalou-se em Sagres, por trás desse Cabo de São Vicente, onde fez construir uma residência fortificada entre terra e oceano, a vila do Infante. Aí, perto do porto de Lagos, o mais próximo de África, montou uma rede de informação interrogando marinheiros, escravos brancos evadidos e náufragos da costa africana. Graças aos melhores cartógrafos, traçou as primeiras rotas, as primeiras cartas de África, com os ventos e as correntes, as funduras, as aguadas.”
“O Segredo da Índia – A Viagem de Vasco da Gama” (romance), de Jean-Jacques Antier, edição “A Esfera dos Livros”, Fevereiro de 2007, pp. 72, 73