“O sol iluminava a praia dourada da enseada do Restelo, no estuário do Tejo, a jusante de Lisboa. Concentrada nas margens, a multidão compacta e silenciosa mantinha o olhar fixo na capela de Nossa Senhora de Belém, flanqueado por um pequeno ermitério, outrora edificado pelo Infante D. Henrique. Monges hieronimitas do mosteiro vizinho de Belém serviam-na, rezando exclusivamente para o sucesso das naus lançadas à descoberta das costas de África, e mais além.

O capitão-mor Vasco da Gama, o seu irmão Paulo da Gama e os seus oficiais tinham passado a noite em oração na capela. Quando a porta se abriu, um imenso arrepio percorreu a multidão, onde se empurravam as famílias dos marinheiros, amigos e uma quantidade de anónimos vindos de Lisboa e dos arredores. Vasco da Gama, magnífico sob a luz do sol de Verão, avançara, uma capa escarlate pelos ombros, levemente levantada ao nível da mão esquerda pela espada. Tinha vestido sobre o gibão e a camisa de seda uma cota de malha de couro entrançada, forrada a cetim carmesim, com franjas de ouro. O vento desgrenhava-lhe a cabeleira brilhante e negra de azeviche. Tinha na mão o boné de veludo com canutilhos de ouro.

Um cavaleiro avançou para ele, inteiramente vestido de veludo e de seda púrpura e ouro. Um novo arrepio percorreu a multidão. O rei! D. Manuel I desceu do cavalo e cumprimentou o capitão-mor, que se ajoelhara.

– Levantai-vos, Vasco da Gama, e pegai nestas informações confidenciais reunidas pelo meu primo D. João II. Eis também as minhas instruções secretas e a credenciais que entregareis aos soberanos e príncipes dos países que ireis descobrir. Procurai estabelecer alianças. Levai-lhes a paz, a prosperidade e a boa nova de Cristo ressuscitado.”

“O Segredo da Índia – A Viagem de Vasco da Gama” (romance), de Jean-Jacques Antier, edição “A Esfera dos Livros”, Fevereiro de 2007, pp. 45, 46