As gentes destas terras, posto que pertencem ao Rajá de Siranagar, são porém de outra casta; a linguagem é diferente: comem carne crua, e assi como vão esfolando o carneiro o vão comendo, principalmente toda a gordura que tem; e os nervos dos pés é pera eles o melhor bocado; as tripas, depois de mal enxaguadas na água, as fazem em bocadinhos, e assi as vão logo comendo; alguma porém cozem, mas não lhe esperam mais que a primeira fervura, dizendo que a carne muito cozida perde o sabor e substancia. Comem a neve como entre nós o pão ou dôce; vendo eu um menino de dous pera tres anos com um pedaço nas mãos comendo dele, me pareceu que lhe faria muito mal; mandei-lhe dar umas passas, que actualmente nos mandara dar o Rajá do Pagode, e que lhe tirassem das mãos o torrão da neve; tomou ele as passas, e começando a comer as botou fora logo, chorando pela sua neve; e assi meninos, grandes e pequenos, comem a carne crua e arroz, assi como vem de Lira, e outras sementes desta sorte; e com isto ficam muito fortes e sãos, bem fora das cólicas da Índia. Aqui lavram e semeiam as mulheres, e os homens fiam; estas trazem por jóias nas orelhas umas folhas como olas de palmeira, enroladas de maneira que representam dous fusos, que saindo das orelhas assim dereitos, lhes correm pelo rosto um palmo e meio de comprido.

Na última destas povoações, chamada Maná, estivemos alguns dias esperando que quebrassem as neves de um famoso deserto, que corre daqui até às terras do Tibet, que se pode passar em dous meses do ano sómente, não dando elas lugar nos outros dez a comércio algum. [...] 

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 - a partir de “Viagens na Ásia Central em Demanda do Cataio: Bento de Goes e António de Andrade”, Introd. e notas de Neves Águas, Lisboa, Publ. Europa-América, 1988)