Março 2007


Com todo o segrêdo possível nos partimos da cidade do Deli, uma madrugada, indo vestidos como os Mogores por baixo das lobas, e logo em saindo das portas pera fora, como era escuro as despimos e aparecemos com toucas e cabaias, sem disto terem notícia os próprios Cristãos e moços nossos, que até ali nos tinham acompanhado caminho de Laor; deixado o caminho real, começámos a atravessar as terras del-Rei, por caminhos mais breves que nos foi possível, até que passados quinze dias chegámos ao cabo das terras do Indostão, e ficámos ao pé das serras que são do Rajá de Siranagar. Grandes dificuldades tivemos destas saídas das terras de Siranagar, desta banda nos tinham por Mogores fugidos, e que por nenhum modo nos deixariam passar, antes, presos, nos mandariam a el-Rei, por terem ordem sua pera isso; e confirmavam-se, vendo que nem éramos gentios nem mercadores, pois não levávamos fato; por outra parte os de Siranagar haviam que éramos Mogóis, mandados pera espiar a terra, pelo muito que se temem deste Rei; e passados alguns dias, vendo-nos nestas talas, quando parece se fechavam de todo os caminhos para nós, nos deu o Céu franca passagem, ensinando-nos a pôr só a confiança naquele por cuja glória fazíamos esta jornada. 

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 - a partir de “Viagens na Ásia Central em Demanda do Cataio: Bento de Goes e António de Andrade”, Introd. e notas de Neves Águas, Lisboa, Publ. Europa-América, 1988)

Fidalgo (séculos XIV e XV). Partiu para a Índia na armada de Lopo Soares de Albergaria. Foi nomeado capitão da Armada Cruzeiro, com o objectivo de defender o reino de Cochim. Juntou-se ao grupo de Lopo Soares de Albergaria, quando este assaltou o porto de Panani, comandando o pelotão que lutou contra os turcos do Soldão. Integrou ainda a armada de Tristão da Cunha e Afonso de Albuquerque, em 1505, participando na tomada de Socotorá.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

Nesta darei conta a V. R. da peregrinação que fizémos às terras do Tibet, deixando muitas particularidades, assi por escusar ser comprido, como porque nem para escrever esta tenho tempo. Aos trinta de Março de 1624 partimos de Agra, o Padre Manoel Marques e eu, pera acompanhar a el-Rei, o qual eu tinha deixado quando passou por Agra, por razão de uma grande doença em que caí; chegamos à cidade do Deli, da qual actualmente partiam muitos Gentios a um famoso pagode, em romaria, que dista de Agra mês e meio de caminho; e como tínhamos muitas informações tiradas por várias vias com grande diligência, com as quais nos certificámos, serem aqueles Reinos de Cristãos, [...]. 

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 - a partir de “Viagens na Ásia Central em Demanda do Cataio: Bento de Goes e António de Andrade”, Introd. e notas de Neves Águas, Lisboa, Publ. Europa-América, 1988)

Missionário (Oleiros, 1580-Goa, 19 de Março de 1634). A 15 de Dezembro de 1596, tornou-se jesuíta, veio a partir para a Índia em 1600, na companhia de 12 portugueses e sete italianos. Em 1624, começou a sua viagem até ao Tibete, com o intuito de difundir a fé cristã e o nome de Portugal. Atravessou os Himalaias, descobriu uma das mais importantes nascentes do rio Ganges e penetrou no interior do Tibete, sendo identificado como o primeiro europeu a chegar ao interior tibetano. Fundou uma missão nesta região e, através dos seus escritos, deu a conhecer ao Ocidente a etnografia, o clima, a flora e a hidrografia, entre outros aspectos igualmente importantes. Destaca-se a sua obra Novo Descobrimento do Grande Cantaio ou Reino do Tibete, editada em Lisboa em 1626.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

Entre as grandes felicidades e vitórias do notável ano de 1625, pode Hespanha com razão contar e cantar a alegre nova do novo descobrimento do Gram Cathayo e Reinos de Tibet, cousa tantos anos há dos Portugueses desejada, e com tantos trabalhos e perigos dos Prègadores Evangélicos em vão até agora intentada. [...] E com muito mór razão deve o mundo todo festejar a redução do grande império de Etiópia à obediência da Santa Igreja Católica Romana, império tão grande, que ele só é igual, ou maior, que toda nossa Europa, pois tem de largo quinhentas léguas, e de comprido setecentas. Ambas estas empresas tão gloriosas guardou a divina providência, por tantos séculos, para os generosos espíritos Portugueses, e para o espírito e zêlo das almas dos reverendos Padres da Companhia de Jesu, como veremos nas relações seguintes, das quais a primeira, como mais breve, sairá logo, e a outra após ela, Deus querendo, pois não é razão fiquem em eterno silêncio sepultadas duas das móres façanhas que há muitos séculos fizeram os varões Apostólicos e Evangélicos conquistadores. O teor da primeira relação, fielmente tirada de seu original, é o seguinte:

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 - a partir de “Viagens na Ásia Central em Demanda do Cataio: Bento de Goes e António de Andrade”, Introd. e notas de Neves Águas, Lisboa, Publ. Europa-América, 1988)

Patriarca da Etiópia (Porto, 1510?-Goa, 1562). Já era formado em Cânones pela Universidade de Salamanca e sacerdote, conhecido como Abade Santo, quando se tornou jesuíta, em 1544. Recebeu a sagração episcopal em 1555, tendo sido o primeiro bispo jesuíta e o primeiro patriarca latino da Etiópia. Foi para o Oriente a 28 de Março de 1556, mas não chegou a entrar em contacto com a cristandade que lhe fora confiada.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

Capítulo XXIX

Da cidade e reino de Caraemite, e das grandes coisas que nela vi, e dos trabalhos que aqui passei. Caraemite é uma cidade, como cabeça de reino, mui notável em aquelas partes: é de grande comarca. Situada junto do rio Tigre para a banda do norte, cercada de mui notáveis muros e barbacãs e edifícios de grande admiração. Os muros são mui altos e mui largos, de cantaria e torrejados de muito altas e Formosas torres, e todos ainda mui inteiros e sãos. Disseram-me que fora dos gregos. As casas de dentro não são da maneira dos muros, e são edificadas de edifícios modernos de taipas francesas que agora usam os mouros. Somente têm igrejas sem telhados e campanários, onde parece que estavam sinos em algumas partes delas. Nasce dentro dela a uma parte uma fonte mui abundante de água, que corre um bom ribeiro que a atravessa, em que há muitas casas de moinhos e banhos. Há dentro grandes pomares de todas as árvores de fruta como em estas partes. Será de quatro mil vizinhos, todos Cristãos Jacobitas e Nestoris, e outros de outro costume, que se chamam Dustimaria: que quer dizer em nossa língua amadores de Santa Maria, todos gentes brancas. Falam língua arábia, e assim há turcos e doutras nações. É senhoreada pelo Grão-Turco, onde tem um Paxá por governador dela, com grande guarnição de gente de pé, que eles chamam janízaros: espingadeiros. E são escravos do Grão-Turco, filhos de Cristãos, dos reinos que ora possui por nossos pecados […].

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 - a partir de “Itinerário: em que se contém como da Índia veio por terra a estes Reinos de Portugal” (1560), Estampa, 1980)

Governador da Índia e de Moçambique (Faro, 1520-Sena, Moçambique, 1573). Era filho do fidalgo Rui Barreto, fronteiro-mor do Algarve, e de D. Branca de Vilhena, parente dos Condes de Olivença. Fixou-se na Índia em 1547, assumindo o cargo de capitão da Fortaleza de Baçaim e depois, com a morte do vice-rei da Índia D. Pedro de Mascarenhas, tornou-se no 19º governador da Índia (de 1555 a 1558), por primeira via de sucessão. No exercício desse cargo alcançou brilhantes vitórias, apesar de não ter alargado significativamente os domínios portugueses. Desterrou Camões por este o haver satirizado com as redondilhas intituladas Disparates da Índia. De regresso ao reino a 20 de Janeiro de 1559, foi capitão-mor das Galés e apoiou o reino de Castela na tomada de Peñon de Cellez (1564). Em 1569, foi para Moçambique como capitão-general e governador da costa oriental de África. Empreendeu a exploração dos territórios confinantes com o Monomotapa.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

Pelo meio desta cidade vai uma ribeira de água muito boa, de que se serve e bebe todo o pvoo, e a levam por canos por todas as ruas por debaixo do chão, onde cada rua tem em certos lugares uns bocais e fechos de pedra por onde a tiram. No Inverno vem quente e como é em cima sobre a terra em pouco espaço torna caramelo, e no Verão é esta terra tão quente que se costuma nela, em certas casas, debaixo do chão guardarem o caramelo homens que nisso tratam e vendem em todas as praças e ruas ao povo comum; e os honrados e ricos mandam trazer neve das serras e a têm em suas despensas e a deitam em água que bebem. Em esta terra nos agasalharam em umas ricas casas com grande jardim e pomar dentro, de fruta, como em Espanha, onde estivemos alguns dias descansando do trabalho do caminho; e o governador desta cidade nos mandou dar sempre o necessário de mantimentos, cevada e feno para os cavalos. E passados alguns dias nos partimos para a corte e campo do Sufi. […]

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 - a partir de “Itinerário: em que se contém como da Índia veio por terra a estes Reinos de Portugal” (1560), Estampa, 1980)

Missionário no Oriente (Porto, 1519/1520-Goa, 1571). Em 1543, doutorou-se em Cânones na Universidade de Coimbra e entrou para a Companhia de Jesus. A 10 de Março de 1551 partiu em direcção à Índia e três anos mais tarde viajou para o Japão, juntamente com Fernão Mendes Pinto. Foi o primeiro jesuíta a missionar na China (1555), onde fundou a missão de Kwangtung. As suas cartas percorreram a Europa traduzidas em várias línguas.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

« Previous PageNext Page »

Design www.vanillamist.com
Optimizado para Internet Explorer

Creative Commons License
Carreira da Índia by Leonel Vicente is licensed under a
Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Portugal License.