Março 2007


Geógrafo (1594?-1642). Foi cronista-geral da Índia e guarda-mor do Arquivo Real de Goa desde 1631. Continuou as Décadas da Ásia, iniciadas por João de Barros e Diogo do Couto, até atingir o ano de 1617. Deixou, entre outros manuscritos, o Livro das Plantas de Todas as Fortalezas, Cidades e Povoações do Estado da Índia Oriental (inclui algumas da África Oriental).

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

Costumam estes gentios ir assi muito juntos, uns após outros, por o caminho não dar lugar a ir dous par a par; e vão dando grandes vivas e euges a seu pagode de contino, com estas palavras (ye Badrynate ye ye), alevantando qualquer a primeira palavra, e respondendo todos; com bem mágua nossa ouvíamos nós estas vozes do inferno,e já que não podíamos tomar outra vingança do maldito pagode, nos apostávamos a lhe lançar com a mesma frequência, outras tantas maldições, e pedir à Corte do Céu, em nosso nome desse outros tantos louvores e glórias ao Senhor Jesu. Logo na primeira jornada, a cada tiro de flecha, achávamos vários pagodes de obra sumptuosa, pela maior parte todos com lâmpadas acesas, mas todos de várias figuras, e todos abomináveis e ridículos; por guardas e servidores têm muitos iogues, que logo nas figuras mostram serem ministros do diabo; entre outros vimos um já mui velho, com as unhas e cabelo tão crescido, e a catadura tão disforme, que parecia o próprio diabo; e ele, sem falar palavra, como uma estátua, recebia os louvores e reverências dos gentios, que debruçados por terra lhe beijavam os pés. Desejei a este o que dois meses antes tinha este Rei mandado fazer a outro mais disforme; e foi que indo ele à caça em Agmir, ao longo de um grande tanque, onde concorriam naqueles dias grande número de gentios pera suas superstições, viu um iogue tão horrendo na figura que tinha os cabelos da cabeça compridos de quatro côvados e as unhas mais de palmo; e ele tão sem pejo, que com nada se cobria; era grande o concurso de gentios que lhe iam beijar os pés, e tudo el-Rei foi notando, ficando o iogue imóvel, sem lhe fazer nem uma reverência; voltando o Rei da caça, o mandou chamar; deu o iogue por resposta que não iria senão a ombros de homens no andor real; ouvindo el Rei esta resposta o mandou trazer a rasto pelos cabelos, e tendo-o diante de si lhe disse que ou ele era o diabo, ou retrato vivo do mesmo, pois não se podia imaginar cousa mais enorme; e logo lhe mandou cortar os cabelos e unhas, e dar outro castigo devido à sua descompostura, e após isso um grande número de açoites, e que o levassem pelos bazares, para que os rapazes com suas zombarias vingassem ou recompensassem os louvores e referências que lhe faziam os gentios; outro tanto se devia ao iogue de que acima falei. 

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 - a partir de “Viagens na Ásia Central em Demanda do Cataio: Bento de Goes e António de Andrade”, Introd. e notas de Neves Águas, Lisboa, Publ. Europa-América, 1988)

Tubarão EsquiloÉ lançado hoje o website da TubarãoEsquilo, apresentando as vertentes principais deste projecto editorial, assim como a lista de autores e editores que integram esta rede agregadora de blogues e outros sites, iniciada há cerca de 6 meses.

O site disponibilizará serviços de agregação de textos e peças multimedia resultantes da actividade editorial dos membros (ver notícia aqui).

É com prazer que integro esta rede, com representação ao nível de três blogues que vou mantendo: Carreira da Índia, Memória Virtual e Tomar.

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Escritor (séculos XVI e XVII). Franciscano, foi enviado à Índia, em missão, em 1605. Tem valor histórico e literário o seu Itinerário (1611).

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

Com muita diligência e maior alegria, começámos a subri as serras; são elas as mais fragosas e altas que parece pode haver no mundo, e bem longe estou de poder declarar a V. R. a dificuldade com (que) por elas subimos; basta saber depois de andar dois dias desde pela manhã até à noite, não acabávamos de passar uma, cortando pelos mais altos picos, e neles por caminho tão estreito, que por muitas vezes não é mais largo, que quanto cabe um só pé, andando bons pedaços assi, pé ante pé, pegados com as mãos, pera não resultar, pois o mesmo é errar o pôr o pé bem dereito, que fazer-nos em pedaços pelos ares. São pela maior parte aquelas serras tão talhadas a pique, como se por arte estivessem a prumo, correndo-lhes lá no fundo, como em um abismo, o rio Ganga, que por ser mui caudaloso, e se despenhar com notável estrondo por grande penedia entre serras tão juntas, acrescenta com seu eco o pavor que a estreiteza do caminho causa a quem vem passando. Tem as descidas mais dificultosas e perigosas, pois carece homem em muitas partes de remédio de se poder pagar com as mãos como nas subidas, e assi é necessário descer em muitas partes como quem desce escada de mão, dando as costas ao caminho que vai fazendo. Duas considerações nos facilitavam muito estas dificuldades das serras: a primeira, ver que assi as passavam com muita alegria muitos gentios que iam em romaria ao seu pagode, e nós por glória de Jesu Cristo, nosso Deus, não fazíamos mais que eles; outra, que entre estes idólatras havia muito de crescida idade, já com os pés na cova e muito inferiores a nós nas forças e na idade, que nos serviam de boa confusão, e também de nos animar neste caminho. 

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 - a partir de “Viagens na Ásia Central em Demanda do Cataio: Bento de Goes e António de Andrade”, Introd. e notas de Neves Águas, Lisboa, Publ. Europa-América, 1988)

Navegador (século XV), de nome Pêro Vaz da Cunha. Possuía um mapa que assinalava uma terra que correspondia à encontrada por Pedro Álvares Cabral. Na carta que enviou a D. Manuel I, mestre João informou o monarca que para conhecer a localização da nova terra podia consultar o mapa-múndi do Bisagudo, onde a mesma estava representada, sem, contudo, indicar se a terra era ou não habitada. O que faz supor um conhecimento do território brasileiro antes de 1500. Porém, a interpretação desta representação cartográfica tem suscitado polémica.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

E a noute seguinte, à segunda-feira, quando lhe amanheceu, se perdeu da frota Vasco d’Ataíde, com a sua nau, sem aí haver tempo forte nem contrairo para poder ser. Fez o capitão suas diligências para o achar, a umas e a outras partes, e não apareceu mais.

Mercador alemão (Nuremberga, 1459?-Lisboa, 1507), oriundo de uma família de Nuremberga. Conhecido em Portugal, onde se fixou cerca de 1484, por Martinho da Boémia, introduziu no país conhecimentos de astronomia e cosmografia. Por volta de 1490, regressou à sua terra natal, onde construiu o primeiro globo terrestre, concluído em 1492. A partir de uma descrição oral de Diogo Gomes, escreveu um relato sobre o comércio na Guiné.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

E domingo, 22 do dito mês, às 10 horas, pouco mais ou menos, houvemos vista das ilhas do Cabo Verde, isto é, da ilha de S. Nicolau, segundo dito de Pêro Escobar, piloto.

Militar (?-1551). Diplomata e guerreiro, foi uma das figuras que mais se destacou no serviço prestado na Índia na primeira metade do século XVI. Depois de ter sido moço da câmara de D. Manuel, deslocou-se para a Índia, onde chegou em 1510. Tomou parte na conquista de Goa e depois, em 1511, tornou-se capitão-mor da esquadra que se dirigiu para o cabo Guarda-fui. Em 1513, juntou-se a Afonso de Albuquerque na viagem ao mar Vermelho e, em 1515, participou na conquista de Ormuz. Regressou à Índia em 1519, tornando-se capitão da fortaleza a construir em Diu. Morreu durante uma batalha naval ao largo de Chaul.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

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