E como disse, é tamanha a bondade do sítio que sobre ser tão estéril há na cidade muitos e mui ricos mercadores e carafos que cambam a moeda de grosso trato, assim naturais como estrangeiros de diversas partes do mundo; e por isso de todas elas vêm ali muitas e mui ricas mercadorias. E posto que nesta ilha não há nenhuns mantimentos, a cidade é mais abastada deles que outra alguma, que se saiba em o mundo. E todas lhe vêm de carreto, a saber: trigo, arroz, carnes, manteiga e todas as caças, como em Espanha, frutas verdes, secas em conversa e outras muito diversas das nossas. Até água e lenha lhe vem de fora, e contudo sempre nas suas praças se acha feito de comer e fazem-no os mouros muito limpamente. Assam os carneiros inteiros e por esfolar e pelam-nos: e assim com a pele é a carne mais saborosa. Tudo se vende a peso, por mui grande regimento e taxa, e qualquer pessoa que a não guarda ou falseia o peso é gravemente castigado. Guarda-se muito a justiça a todos. A moeda que aqui se gasta é mourisca, de ouro e de prata fina e de cobre: a de ouro se chama serafim, e vale trezentos reais, a de prata tanga, e vale três vinténs, posto que os mouros lhe chamam Iaris, por se fazerem em uma cidade chamada Lara; e a de cobre se chama falus, e vale sete ceitis. Há nesta cidade muitos desenfadamentos, entre os quais há um para os homens curiosos de feitos antigos; e é que em um alpendre grande a certas horas do dia, pela manhã e à tarde lê um mouro velho crónicas antigas, assim de Alexandre como de outros varões ilustres; isto fazem para os mancebos se costumarem bem. Esta cidade é a cabeça do reino, que dela toma o nome. Tem muitas cidades e vilas, assim na costa da Arábia como na de Pérsia; e as mais delas abastadas de pão, carnes, pescados, tâmaras e delas pagava el Rei de Ormuz tributo ao Xeque Ismael ou Sufi, como lhe cá chamam. [...]

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 - a partir de “Itinerário: em que se contém como da Índia veio por terra a estes Reinos de Portugal” (1560), Estampa, 1980)