“Prólogo”

AO MUITO ALTO E PODEROSO REI D. SEBASTIÃO, o primeiro deste nome, nosso senhor Rei de Portugal e dos Algarves, etc.

MUITO ALTO E PODEROSO SENHOR. Muitas coisas acometem às vezes os homens, tão árduas e dificultosas que excedem as forças humanas, nem se poderiam acabar senão por especial graça do senhor Deus que para as coisas do seu serviço e endereçadas a bom fim dá novo espírito e alento aos homens e novas forças para sofrer grandes trabalhos e não arrecearem os perigos. Desta qualidade foi esta minha peregrinação que neste pequeno tratado ofereço a V. A., no qual brevemente compilei as coisas que passei desde o tempo que, estando na Índia servindo na milícia a el Rei de mui gloriosa memória vosso avô, fui na companhia da embaixada de D. Duarte de Meneses, governador que então era da Índia, mandou ao Sufi e passando eu mais adiante com o desejo que tinha de ir a Jerusalém correndo a Turquia e grande parte da Ásia, me foi necessário tornar à Índia por não achar embarcação para Europa, e pela experiência que tinha deste caminho não acostumado de homens cristãos, me mandou Cristóvão de Mendonça, capitão e governador do reino de Ormuz, que viesse da Índia por terra a Portugal com cartas de muita importância, a el Rei vosso avô; o que eu aceitei e foi coisa nova e estranha neste reino verem homem que da Índia viesse por terra a Portugal. E sem dúvida que milagrosamente Nosso Senhor me trouxe a estes reinos, segundo claramente se verá no processo deste tratado, sendo tantas vezes posto em risco de morte, preso, roubado, e passando por tão diversas nações bárbaras e estranhas e pelo deserto, entre bestas e feras alimárias, que eu mesmo tive por impossível escapar da morte. Tinha escritos os trabalhos destes caminhos há já muitos anos, porque naturalmente folga homem de tornar à memória o passado, e com intenção também que, lendo isto, algum de vossos leais e curiosos vassalos tomassem daqui algum estímulo e exemplo para com grande cuidado servir a seu Rei, pareceu-me agora bem fazer imprimir este processo de minha viagem para que mais gente seja dele participante e oferecê-lo a V. A. como serviço do derradeiro quartel da minha vida, pois já com outra coisa não posso servir. Nosso senhor acrescente os dias de vida e real estado de V. A. para seu serviço e amparo destes reinos. Amen.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 - a partir de “Itinerário: em que se contém como da Índia veio por terra a estes Reinos de Portugal” (1560), Estampa, 1980)