“Onde não há marido
cuidai que tudo é tristura,
não há prazer nem folgura,
sabei que é viver perdido.
Alembrava-vos eu lá?
MARIDO: E como!

AMA: Agora, aramá:
lá há índias mui fermosas,
lá faríeis vós das vossas
e a triste de mi cá,
encerrada nesta casa,
sem consentir que vezinha
entrasse por üa brasa,
por honestidade minha.

MARIDO: Lá vos digo que há fadigas,
tantas mortes, tantas brigas
e perigos descompassados,
que assi vimos destroçados
pelados coma formigas.

AMA: Porém vindes vós mui rico…

MARIDO: Se não fora o capitão,
eu trouxera, a meu quinhão,
um milhão vos certifico.
Calai-vos que vós vereis
quão louçã haveis de sair.

AMA: Agora me quero eu rir
disso que me vós dizeis.
Pois que vós vivo viestes,
que quero eu de mais riqueza?
Louvado seja a grandeza
de vós, Senhor que mo trouxestes.
A nau vem bem carregada?

MARIDO: Vem tão doce embandeirada.

AMA: Vamo-la, rogo-vo-lo, ver.

MARIDO: Far-vos-ei nisso prazer?

AMA: Si que estou muito enfadada.

Vão-se a ver a nau e fenece esta farsa.”

(Texto em formato electrónico proveniente de Projecto Vercial - Literatura Portuguesa, via http://www.bibvirt.futuro.usp.br/content/view/full/1813)