Qui 1 Mar 2007
“AMA Não sei pera que é viver.
MARIDO: Oulá.
AMA: Ali má hora este é.
Quem é?
MARIDO: Homem de pé.
AMA: Gracioso se quer fazer.
Subi, subi pera cima.
MOÇA: É noss’amo, como rima!
AMA: Teu amo? Jesu, Jesu,
Alvíssaras pedirás tu.
MARIDO: Abraçai-me minha prima.
AMA: Jesu, quão negro e tostado!
Não vos quero, não vos quero.
MARIDO: E eu a vós a si, porque espero
serdes mulher de recado.
AMA: Moça, tu que estás olhando,
vai muito asinha saltando,
faze fogo, vai por vinho
e a metade dum cabritinho,
enquanto estamos falando.
Ora como vos foi lá?
MARIDO: Muita fortuna passei.
AMA: E eu, oh quanto chorei,
quando a armada foi de cá.
E quando vi desferir
que começastes de partir,
Jesu, eu fiquei finada,
três dias não comi nada,
a alma se me queria sair.
MARIDO: E nós cem léguas daqui
saltou tanto sudueste,
sudueste e oés-sudueste
que nunca tal tromenta vi.
AMA: Foi isso à quarta-feira,
aquela logo primeira?
MARIDO: Si, e começou n’alvorada.
AMA: E eu fui-me de madrugada
a nossa Senhora d’Oliveira.”
(Texto em formato electrónico proveniente de Projecto Vercial - Literatura Portuguesa, via http://www.bibvirt.futuro.usp.br/content/view/full/1813)