Artigo xli, que fala dos naires e seus custumes.

A gemte do Malavar hé preta e baça e parda, sam todos os reis gemtios bramenes ou de casta de seus sacerdotes. A limguajem hé toda hũa, asi como em Itália, defere se pouca cousa. E toda a terra muito pavoada. Averá neste Malavar duzemtos mill naires, homens de peleja d’espada e adarga e frecheiros. São homens que adoram o seu rei, e se por acaso o rei morre em batalha, sam hobrigados ha morrer, e se o não fazem desterram se da terra e ficam emjuriados pera sempre. Sam estes naires homens leais e nam tredos. Primeiro que hum rei do Malavar peleje com outro lho a de fazer saber, pera que se aperceba. Nenhum naire, como hé de idade pera tomar armas, não pode sair de casa sem ellas. E quando está pera morrer, sempre tem jumto consiguo a espada e adarga, tam perto que se lhe comprir que a posa tomar. Custumão todos fazer gram reveremçia aos mestres que os emsinão, em /tamta maneira que ho milhor dos nairres, se achar hum mestre que allgũa cousa lhe emsinou, faz lhe reveremçia e depois vai se lavar. E se hum naire acha em hum caminho a outro naire mais velho, adora o e dá lhe caminho. E se estiverem tres ou quatro irmãos, ho mais velho á d’estar asemtado e os outros em pee.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 - a partir de “O Manuscrito de Lisboa da Suma Oriental” de Tomé Pires; Rui Manuel Loureiro, Lisboa, Instituto Português do Oriente, 1996)