Qui 1 Fev 2007
VERDADEIRA INFORMAÇÃO DO PRESTE JOÃO DAS ÍNDIAS (XIV)
Publicado por Leonel Vicente em Preste João das Índias - Padre Francisco Álvares
O Preste João não tem lugar determinado para estar, anda sempre no campo com tendas e sempre terá no seu arraial cinco, seis tendas, entre boas e comunais e somenos; gente de cavalo e de mulas haverá sempre na corte de cinquenta mil para cima.
A cozinha do Preste João está um bom tiro de besta atrás do seu aposentamento e trazem de comer desta maneira: tudo o que há-de comer vem em escudelas e panelas de barro muito preto, em ganetas de pau e pajens que as trazem e sobre os pajens vem um palio de seda que os cobre de maneira que vêm reverenciadas estas iguarias. Há aí muitos reguengos do Preste em que se colhe grande soma de pão, o qual se dá a pessoas honradas e pobres e mosteiros e igrejas pobres, sem o Preste João se aproveitar de nada do proveito e rendas destes reguengos, somente esmolas. […]
Em toda esta terra não há aí ponte de pedra nem de pau. Em nenhuma parte dos reinos e senhorios do Preste João não há judeus. Há infindas canas-de-açúcar e nã o sabem fazer. Há na terra uvas, pêssegos (são maduros no mês de Fevereiro e acabam em Abril), muitas laranjas e limões e cidras e pouca hortaliça, porque a não plantam.
Alimárias: a saber, leões, onças, tigres, lobos, veados, antas, vacas bravas, raposas, lobos cervais, porcos-monteses, porcos-espinhos, gatos-de-algália, corças, gazelas, elefantes e de outras alimárias a nós não conhecidas, é a terra cheia, salvo duas que nunca lá viu, a saber, ursos nem coelhos.
[…]
(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 - a partir de “Verdadeira Informação sobre a Terra do Preste João das Índias”, Dir. Luís de Albuquerque, Vols. I e II, Lisboa, Alfa, 1989)