“MOÇA Ai, senhora! Venho morta!
Noss’ amo é hoje aqui.
AMA Má nova venha por ti
perra, excomungada, torta.
MOÇA A Garça, em que ele ia,
vem com mui grande alegria;
per Restelo entra agora.
Por vida minha, senhora,
que não falo zombaria.
E vi pessoa que o viu
gordo, que é pera espantar.

AMA Pois, casa, se t’ eu caiar,
mate-me quem me partiu!
Quebra-me aquelas tigelas
e três ou quatro panelas,
que não ache em que comer.
Que chegada e que prazer!
Fecha-me aquelas janelas,
deita essa carne a esses gatos;
desfaze toda essa cama.

MOÇA De mercês está minha ama;
desfeitos estão os tratos.

AMA Porque não matas o fogo?

MOÇA Raivar, qu’ este é outro jogo.

AMA Perra, cadela, tinhosa,
que rosmeias, aleivosa?

MOÇA Digo que o matarei logo.”

(Texto em formato electrónico proveniente de Projecto Vercial - Literatura Portuguesa, via http://www.bibvirt.futuro.usp.br/content/view/full/1813)