Ter 27 Fev 2007
“AMA I-vos embora, senhor
que isto quer amanhecer.
Tudo está a vosso prazer,
com muito dobrado amor.
Oh, que mesuras tamanhas!
MOÇA Quantas artes, quantas manhas,
que sabe fazer minha ama!
Um na rua, outro na cama!
AMA Que falas? Que t’ arreganhas?
MOÇA Ando dizendo entre mi
que agora vai em dous anos
que eu fui lavar os panos
além do chão d’ Alcami;
e logo partiu a armada,
domingo de madrugada.
Não pode muito tardar
nova, se há-de tornar
noss’ amo pera a pousada.
AMA Asinha.
MOÇA Três anos há
que partiu Tristão da Cunha.
AMA Cant’ eu ano e meio punha.
MOÇA Mas três e mais haverá.
AMA Vai tu comprar de comer.
Tens muito pera fazer,
não tardes.
MOÇA Não, senhora;
eu virei logo nessora,
se m’ eu lá não detiver.
AMA Mas que graça, que seria,
se este negro meu marido,
tornasse a Lisboa vivo
pera a minha companhia!
Mas isto não pode ser,
que ele havia de morrer
somente de ver o mar.
Quero fiar e cantar,
segura de o nunca ver.”
(Texto em formato electrónico proveniente de Projecto Vercial - Literatura Portuguesa, via http://www.bibvirt.futuro.usp.br/content/view/full/1813)