Sáb 20 Jan 2007
D. SEBASTIÃO – N. 20.01.1554
Publicado por Leonel Vicente em Imagens , Protagonistas[14] Comentários

D. Sebastião, “O Desejado”, nasceu a 20 de Janeiro de 1554, em Lisboa, tendo desaparecido em Alcácer Quibir, em 4 de Agosto de 1578. Foi o 16º rei de Portugal, tendo o seu reinado tido início a 16 de Junho de 1557, quando contava apenas 3 anos.
Sucedeu ao avô D. João III, num dramático contexto político, uma vez que nasceu 18 dias depois de o seu pai, D. João (Príncipe de saúde frágil, derradeiro sobrevivente dos 9 filhos de D. João III), ter falecido, apenas com 17 anos de idade. Representava, nesse momento, e depois de um período em que o país estivera em suspenso, a miraculosa garantia da manutenção da coroa na posse de portugueses, obviando então às pretensões castelhanas à sucessão.
Com a partida da mãe, D. Joana de Áustria, para Castela, menos de 4 meses decorridos (por imposição de Carlos V, na sequência de cláusula contratual do seu casamento com o Príncipe D. João), permanentemente adulado e mimado, padecendo também de enfermidade, traduzida em desmaios e tonturas, a sua personalidade assumiria contornos caprichosos, com um vincado egocentrismo.
Coroado Rei de Portugal aos 3 anos, foi designada Regente a sua avó, D. Catarina (viúva de D. João III), a qual, acusada de colaboracionista com Castela, abdicaria do cargo em 1562, sendo substituída pelo Cardeal D. Henrique (tio-avô de D. Sebastião, irmão de D. João III), que assumiu a Regência até que o herdeiro completasse 14 anos, a 20 de Janeiro de 1568.
Tendo beneficiado de uma esmerada educação, com os melhores mestres da época (jesuítas), viria a distanciar-se dos estudos assim que assumiu o governo do reino, em 1568, dedicando-se às caçadas.
Não obstante a sua imaturidade, introduziria, no decurso do seu reinado, várias reformas administrativas, legislativas e sociais, a par de continuar a expansão em África e em Ásia.
Possivelmente influenciado na governação pelos seus conselheiros, em particular os irmãos Luís e Martim Gonçalves da Câmara, privilegiaria uma obsessiva orientação pela conquista do Norte de África, em busca de auto-afirmação.
Nunca aceitando qualquer das presumidas candidatas a noiva, manteria o celibato (sem descendência) até à fatídica expedição que lhe tiraria a vida. Partindo para Marrocos rodeado de toda a nobreza, de forma precipitada, com tropas mal preparadas e sem coordenação nem liderança adequadas, o desastre viria abrir novamente a questão da sucessão, na mais grave crise dinástica da História da Monarquia Portuguesa.
Não obstante o seu corpo ter sido reconhecido e sepultado em África – notícia que foi conhecida no Reino a 24 de Agosto de 1578 – (tendo vindo a ser trasladado para Portugal em 1582, onde repousa em Lisboa, no Mosteiro dos Jerónimos), o messiânico mito do sebastianismo perduraria por longos anos.
(Imagem via Wikipédia)
Bibliografia consultada
- “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004
- “D. Sebastião”, por Maria Augusta Lima Cruz, colecção Reis de Portugal, edição do Círculo de Leitores, em colaboração com o Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa da Universidade Católica Portuguesa, 2006
Janeiro 20th, 2007 at 11:36
Tenho acompanhado com muita simpatia e interesse esta vossa página, até chegar hoje a esta biografia necessitando de várias correcções, à luz das fontes, e fora do preconceito que habitualmente acompanha a figura historiograficamente martirizada de D. Sebastião, à má maneira com expoente em Oliveira Martins. Assim, faço os seguintes reparos ao texto, aonde muito sinceramente creio que nada ou quase pode, ou deve, ser salvo:
“…tendo desaparecido em Alcácer Quibir…”
1 Há que acrescentar “morrido ou” antes de desaparecido… dentro do espírito de exactidão que se requer em História.
“Sucedeu ao avô D. João III, num dramático contexto político, uma vez que nasceu 18 dias depois de o seu pai, D. João (Príncipe de saúde frágil, derradeiro sobrevivente dos 9 filhos de D. João III), ter falecido, apenas com 17 anos de idade. Representava, nesse momento, e depois de um período em que o país estivera em suspenso, a miraculosa garantia da manutenção da coroa na posse de portugueses, obviando então às pretensões castelhanas à sucessão.”
2 Alguma pouca coisa disto é exacto. Decerto dramática a morte prematura do Príncipe pai do futuro rei, não se encontrava no entanto de maneira nenhuma ameaçada a sucessão ao trono à data da sua morte, pois que havia sobrinho legítimos herdeiros da Coroa, os infantes D. Duarte, duque de Guimarães, condestável de Portugal, D. Maria, duquesa de Parma, e D. Catarina, duquesa de Bragança. As desqualificadas pretensões de Filipe II à sucessão portuguesa apenas surgem depois da batalha de Alcácer Quibir, como mera capa de um desígnio político outro e disfarçado, sem qualquer cobertura dinástica ou no direito constitucional português. Como filho de filha, Filipe II jamais poderia ter qualquer direito ao trono português antes de extinta toda a descendência de D. Manuel I pelos seus filhos, e netos masculinos, e ainda pelas suas netas, filhas de filhos varões, e sua respectiva descendência.
“…permanentemente adulado e mimado, padecendo também de enfermidade, traduzida em desmaios e tonturas, a sua personalidade assumiria contornos caprichosos, com um vincado egocentrismo…” isto parece contradizer o que vem a seguir: “…Tendo beneficiado de uma esmerada educação, com os melhores mestres da época (jesuítas)… Não obstante a sua imaturidade, introduziria, no decurso do seu reinado, várias reformas administrativas, legislativas e sociais…”
“…a par de continuar a expansão em África e em Ásia.”
Neste reinado o Império Português estava já à defesa, mais do que em expansão, equacionando-se até o progressivo abandono do ruinoso Oriente, e a formulação de um império Atlântico triangular alternativo – Portugal, Marrocos, ilhas, Guiné ou costa africana, Brasil.
“…viria a distanciar-se dos estudos assim que assumiu o governo do reino, em 1568, dedicando-se às caçadas.”
Todos os príncipes portugueses de sempre, e todos os fidalgos portugueses aliás, se dedicaram sempre desde novos à caça… a maioria de idade estando fixada nas Ordenações do Reino aos 14 anos então, idade em que D. Sebastião começou a reinar por si próprio, cessando as regências, é natural que tenha agido em consequência como adulto, cessando oficial e publicamente os estudos, mas não necessariamente os abandonando oficiosamente. Dedicar-se às caçadas sugere aqui ao leitor uma futilidade e alheamento dos negócios do Reino, o que é o oposto da realidade, que nos mostra justamente que, adulto à força tão novo, durante as épocas de caça em Salvaterra o jovem Rei, como os seus antecessores e sucessores aliás, não deixava de receber o expediente, e de despachar os negócios públicos.
“…Não obstante a sua imaturidade, introduziria, no decurso do seu reinado, várias reformas…
Outro paradoxo, visto justamente essas reformas nos inculcarem que demonstrou mais maturidade até do que seria para esperar desde que tão novo recebeu o trono.
“Possivelmente influenciado na governação pelos seus conselheiros, em particular os irmãos Luís e Martim Gonçalves da Câmara, privilegiaria uma obsessiva orientação pela conquista do Norte de África, em busca de auto-afirmação.”
Sobre este ponto, geralmente objecto de preconceituosa e ligeira análise mais ideológica, do que historicista, sugiro a leitura da nossa nota 2 ao artigo “As Teses da Naturalidade e Linhagem de Cristóvão Colombo em Itália…” em http://ph-colombina.blogspot.com/ : “…em 1578 se corria ainda o risco de ver a suzerania turca, já presente na Argélia, estender-se a Marrocos. Isto teria aberto o Atlântico a acções militares navais e de corso contra o Algarve e ilhas portuguesas, sendo a Terceira a rota de chegada dos comboios navais do Oriente, e até contra a própria Lisboa. Compreende-se assim a acertada decisão militar e estratégica del-Rei D. Sebastião de impedir um Marrocos otomano, não fazendo nisso aliás mais do que aceder aos repetidos pedidos nesse mesmo sentido expressos em Cortes, desde o tempo da sua infância, durante a regência do Reino pela rainha D. Catarina, sua avó. Embora perdida a batalha, e morto o soberano, ficou garantido (com elevado preço) o objectivo aparentemente assim definido…”.
“…Nunca aceitando qualquer das presumidas candidatas a noiva…”
Outro equívoco. Um rei tão novo, reinando com a sucessão garantida por Infantes de Portugal, seus primos, ao contrário do que se afirma geralmente, não tinha que “aceitar” noivas: tinha sim, como efectivamente fez, que negociar a aliança dinástica mais conveniente ao Reino, jogando o peso dessa aliança na diplomacia europeia do seu tempo. Duas princesas foram longamente negociadas como interessando a Portugal, sendo Margarida de Valois, abandonada por uma filha de Filipe II ao tempo em que passou a Marrocos, e nunca o assunto deixou de correr as chancelarias.
“…Partindo para Marrocos rodeado de toda a nobreza, de forma precipitada… Possivelmente influenciado na governação pelos seus conselheiros, em particular os irmãos Luís e Martim Gonçalves da Câmara, privilegiaria uma obsessiva orientação pela conquista do Norte de África, em busca de auto-afirmação.”
A partida deu-se no momento exacto em que era preciso para o Reino que se desse… (cf. nota 2 referido artigo já cit.). Este parágrafo induz o leitor a ver nos antigos preceptores jesuitas do Rei, os irmãos Câmara, um incitamento ao soberano para uma passagem deslocada das tropas portuguesas a África, a favor do interesses da expansão do Catolicismo, e não dos interesses do Reino, o que não parece ser verdadeiro nem comprovado.
Enfim, embora seja muito rara a boa bibliografia isenta sobre D. Sebastião, figura sacrificada à maior deturpação possível de séculos de historiografia mitificada, primeireo, e mistificada, depois, sempre ideólogica, não me parece que recolhê-la de dois fracos e generalistas artigos contraditórios tenha sido a melhor solução.
Cumprimentos
Português Racional
Janeiro 20th, 2007 at 11:42
Esqueci-me de assinalar a principal razão que me levou a estabelecer os reparos que formulei, acima, foi o ter curiosamente constatado que estava a ler este artigo na própria data de aniversário do Rei que se deseja finalmente Descoberto: são hoje 20 de Janeiro de 2007, passam 453 anos exactamente desde que nasceu o Desejado.
Cps.
P.R.
Janeiro 21st, 2007 at 21:13
Caro P.R.,
Começo por agradecer o seu comentário, que me parece sério e uma crítica construtiva.
Nesse sentido, agradeço igualmente as precisões que fez questão de indicar, contribuindo para o enriquecimento deste blogue.
Efectivamente, o objectivo da publicação deste texto neste dia era o de coincidir com a data de nascimento.
Conforme referi já em comentário anterior e – também – nesta entrada
http://carreiradaindia.net/2007/01/geral/disclosure/
não tenho qualquer formação específica na área da História, nem da Literatura, pelo que o aqui vou publicando decorre essencialmente da curiosidade em procurar saber mais sobre questões que me interessam, com base em pesquisas que vou fazendo, as quais são condicionadas pelas fontes a que posso ter acesso e limitadas pelo tempo disponível para tal.
No caso concreto, o texto publicado baseia-se nas fontes bibliográficas que indiquei, que aponta serem “fracas”… mas que são as que tinha disponíveis.
Se as mesmas contêm incorrecções ou imprecisões, é deveras útil que haja quem – conhecendo a matéria – possa dar-se ao trabalho de fazer os reparos necessários, contribuindo para o devido esclarecimento dos factos.
Desta forma, reitero uma vez mais o meu obrigado pelo seu interesse por este blogue.
Janeiro 23rd, 2007 at 17:06
Caro Leonel Vicente
O seu trabalho neste blogue é decerto muito útil para todos os interessados em História. Eu justamente defendo que cada vez mais, no futuro, o acesso directo dos interessados às fontes, directamente via net, permitirá que construam pessoalmente uma visão própria da História, sem depender de obras que as sintetizem à maneira de outrém.
Por isso mesmo o nosso apreço pelo Carreira da Índia mantém-se, e o indicámos em link no nosso blogue Pseudo-História Colombina.
(http://ph-colombina.blogspot.com/).
Cps. P.R.
Fevereiro 24th, 2007 at 15:21
Parabéns pelos artigos e pela informação disponibilizada sobre a nossa história. Fiquei um pouco baralhado com as duas teses defendidas: a do Português Racional e a de Leonel Vicente. Não será um pouco das duas?
Fevereiro 25th, 2007 at 19:36
Como indiquei acima, a “minha tese” é a que decorre das fontes bibliográficas que tive possibilidade de consultar…
De alguma forma talvez seja como diz… No “meio” estará a virtude?
Setembro 13th, 2007 at 18:06
[...] tensas entre os dois países, tendo sido assinado a 29 de Outubro de 1576 o tratado de paz entre D. Sebastião e Isabel I. Poucos anos depois, com a subida ao trono de Filipe I (Filipe II de Espanha) voltaram a [...]
Setembro 14th, 2007 at 18:09
[...] professou na Ordem dos Agostinhos, onde foi mestre de noviços, prior e visitador. Capelão de D. Sebastião na jornada de África, caiu prisioneiro (1578) e morreu nas masmorras. Durante o cativeiro, [...]
Setembro 19th, 2007 at 18:13
[...] de D. Sebastião (Madrid, 1535 – Madrid, 7 de Setembro de 1573). Filha de Carlos V e de D. Isabel de Portugal, [...]
Setembro 24th, 2007 at 18:13
[...] D. Catarina, filha de D. Duarte. Herdou o ducado de Bragança e foi duque de Barcelos. Acompanhou D. Sebastião a África, em 1474, mas, não podendo participar na expedição a Alcácer-Quibir (1578), enviou o [...]
Outubro 5th, 2007 at 13:42
[...] Madrid, 31 de Março de 1624). Iniciou o seu percurso profissional como professor de Matemática de D. Sebastião. Entre os seus alunos de Matemática contam-se ainda Cervantes e Lope de Veja. Em 1582, foi [...]
Outubro 23rd, 2007 at 13:55
[...] o título de marquês de Torres Novas, com o qual participou nas Cortes de 1562 e 1568. Acompanhou D. Sebastião na sua primeira incursão a África, em 1574. Posteriormente esteve em Guadalupe e assumiu o [...]
Junho 6th, 2008 at 11:52
MUITO FIXE MAS NAO ERA TUDO O QUE PRESISO
Janeiro 20th, 2009 at 9:42
[...] que iria mudar os destinos de Portugal. Era um rapaz. Órfão de pai. Viria a ser chamado de D. Sebastião e sob os seus ombros carregou as esperanças, as frustrações e os anseios de toda uma nação em [...]