Toda a gente que vem à igreja há-de comungar cada dia ou não vir à igreja. E acabada a comunhão lhes dão uma pouca de água benta com que lavam a boca.

Nenhuma pessoa se senta na igreja nem entram caçados nem escarram nem cospem nem deixam entrar nenhum cão nem outra alimária na igreja e confessam-se em pé e assim recebem absolvição. E nas igrejas dos cónegos assim rezam como na dos frades; os frades não casam, cónegos e clérigos sim. E quando vivem juntamente, os cónegos em circuito, comem em suas casas e os frades em comunidade e os maiorais destas igrejas se chamam licacanate e as mulheres dos cónegos têm casas fora do circuito onde eles vão estar com elas. E o filho do cónego fica cónego e do clérigo não, senão se depois se quer fazer. Não se paga dízima a nenhuma igreja, vivem das grandes propriedades que as igrejas e mosteiros têm. Demandas dos clérigos tratam-se perante a justiça secular.

A vestimenta é feita como camisa e a estola furada pelo meio e metida pela cabeça; não há aí manípulo nem amito nem cinta. Clérigos e frades todos trazem as cabeças rapadas e as barbas não. Os frades dizem a missa com o capelo na cabeça e os clérigos com a cabeça descoberta.

Em nenhuma igreja não se diz mais de uma missa e não se diz missa de esmola nem por mortos; quando se fina alguma pessoa, vêm os clérigos com cruz e água benta e incenso e rezam-lhe certas orações, levam-no a enterrar muito depressa, ao outro dia levam ofertas. Os adros todos são cerrados, que nenhuma coisa entra em eles.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 - a partir de “Verdadeira Informação sobre a Terra do Preste João das Índias”, Dir. Luís de Albuquerque, Vols. I e II, Lisboa, Alfa, 1989)