Ter 30 Jan 2007
VERDADEIRA INFORMAÇÃO DO PRESTE JOÃO DAS ÍNDIAS (XII)
Publicado por Leonel Vicente em Preste João das Índias - Padre Francisco Álvares
O Preste João se chama acegue, que quer dizer imperador, e se chama negus, que quer dizer rei.
Não há maneira de física, somente põem fogo; em alguma doença põem ventosas sem fogo e para dor da cabeça sangram na testa com uma faca posta na veia e dão-lhe com um pau em cima para que tire sangue e porém tomam algumas ervas em beberagem para saírem.
Em toda a terra não há lugar que passe de mil e seiscentos vizinhos e destes poucos e nenhum lugar cercado, nem castelo; aldeias sem conto, as casas comummente ou as demais são redondas e todas térreas cobertas de terrados ou de palha, currais derredor. Dormem o geral em couros de boi, outros em leitos de correias dos mesmos couros, nenhuma maneira de mesa. Comem em umas gamelas chãs como bandejas de mui grande largueza, sem toalhas nem guardanapos. Têm bacios de barro muito preto como azeviche e púcaros do mesmo barro por que bebem água e vinho. Muitos comem carne crua e outros assada nas brasas e outros sobre a lenha e sobre bosta de bois onde não há lenha.
Há aí muita cera e velas e candeias, dela não fazem candeias de sebo; não há aí azeite senão um que chamam hena e é de umas ervas que parecem pampilhos, não sabe a nada e é formoso como ouro. Não há aí pescado senão muito pouco de rios, do mar nenhum.
Não há aí mosteiros senão de Santo Antão e não de nenhuma outra ordem, como dizem alguns frades que de lá vêm.
Fidalgos e religiosos, cónegos e clérigos andam vestidos, a demais da outra gente nus da cinta para cima e uma pele de carneiro pelo ombro atada do pé à mão.
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(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 - a partir de “Verdadeira Informação sobre a Terra do Preste João das Índias”, Dir. Luís de Albuquerque, Vols. I e II, Lisboa, Alfa, 1989)