II Parte 

Capítulo IX

De certas perguntas que o arcebispo de Braga fez a Francisco Álvares e respostas que a elas deu

[…] e o dito Francisco Álvares chegou a esta cidade de Braga aos 30 de Julho de 1529.

Disse que comummente não come toda a gente somente uma vez no dia; esta é à noite e jejum na Quaresma religiosos e clérigos estreitamente, de maneira que muitos na semana não comem mais de três vezes, a saber, terça, quinta, sábado, não bebem vinho de uvas nem de mel, bebem outras beberagens que se fazem de outros legumes.

Na Quaresma não se come carne nem leite nem ovos nem manteiga, ainda que estejam para morrer; comem legumes e algumas poucas frutas que aí há. E todas as quartas-feiras e sextas do ano jejuam todos os homens e mulheres, grandes e pequenos; isto se não entende do Natal até à Purificação de Nossa Senhora, nem da Páscoa da Ressurreição até à Trindade, que não há aí jejum. Frades, clérigos e homens fidalgos e nobres jejuam toda a semana, tirando sábado e domingo.

Disse que nenhuns homens morriam por justiça e que a muitos açoitavam e a alguns tiravam os olhos e a outros cortavam pé e mão, segundo a qualidade do crime; porém que ele vira queimar um homem porque fora achado em dois furtos na igreja.

Que o papa ou patriarca da terra do Preste João se chama abuna, que quer dizer padre, e não há aí outro nenhum em todos os reinos e senhorios do Preste que dê ordens senão aquele.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 - a partir de “Verdadeira Informação sobre a Terra do Preste João das Índias”, Dir. Luís de Albuquerque, Vols. I e II, Lisboa, Alfa, 1989)