Sex 26 Jan 2007
VERDADEIRA INFORMAÇÃO DO PRESTE JOÃO DAS ÍNDIAS (X)
Publicado por Leonel Vicente em Preste João das Índias - Padre Francisco Álvares
Capítulo CXV
Como o Preste nos mandou um mapa-múndi que lhe trouxéramos para lhe tornar as letras em abexim e do que mais passou e das cartas para o Papa
Estando nós no lugar de Dara, o Preste João nos mandou um mapa-múndi que havia quatro anos que lhe trouxéramos, que lho mandara Diogo Lopes de Sequeira, dizendo que as letras que estavam naquela carta se diziam as terras quais eram e se isto diziam, que logo ao pé lhes fizessem suas para saber quais eram as terras e logo nos pusemos, o frade embaixador que vai para Portugal e eu, ele escrevia e eu lia. E ao pé de todas nossas letras, pôs as suas. E porque o nosso Portugal é misto com Castela em pequeno espaço e Sevilha mui perto de Lisboa perto da Corunha, lhe pus Sevilha por Espanha e Lisboa por Portugal e a Corunha por Galiza. Todo o mapa-múndi acabado, que nada não ficou, o levaram. E no dia seguinte mandou chamar o embaixador e a todos os que estávamos com ele e logo nas primeiras razões nos mandou dizer que El-Rei de Portugal e El-Rei de Castela eram senhores de poucas terras e que não bastaria El-Rei de Portugal para defender o mar Roxo ao poder dos turcos e rumes e que seria bom escrever ele a El-Rei de Espanha para que mandasse fazer fortaleza em Zeila e El-Rei de Portugal mandaria fazer em Maçuá e El-Rei de França mandasse fazer em Suaquém e todos três com as gentes dele, Preste, poderiam guardar o mar Roxo e tomar Judá e Meca e o Cairo e a Casa santa e ir por todas as terras que quisessem. Respondeu a isto o embaixador que Sua Alteza está enganado ou mal informado, que se alguém isto lhe dissera, que não lhe disse a verdade e se o tomara bem o conhecimento das terras, porque Portugal e Espanha estão no mapa-múndi como coisas bem sabidas e não como necessárias de se saberem e que olhasse no mapa-múndi como estavam as cidades e castelos e mosteiros e assim estava Veneza, Jerusalém, Roma como coisas bem sabidas e em pequenos espaços e olhasse sua Etiópia como estava coisa não sabida, muito grande e muito espalhada, cheia de montanhas e de leões e de elefantes e doutras muito alimárias e assim de muitas serranias, sem ela mostrar o mapa-múndi cidade, vila nem castelo e que soubesse Sua Alteza que El-Rei de Portugal por seus capitães era poderoso para defender e guardar o mar Roxo a todo o poder do grão-sultão e do grão-turco e os guerrear até à Casa Santa e que outras maiores conquistas trazia nas partes de África com El-Rei de Fez e de Marrocos e outros muitos reis, subjugando todas as Índias e por força fazendo todos os reis delas seus sujeitos tributários como Sua Alteza bem sabia, por contrários de El-Rei de Portugal que eram os mesmos mouros da Índia tratantes na sua corte. A isto não veio resposta e salta em outra pergunta e nos despediu mandando-nos muito comer e beber e assim o fazia cada dia enquanto na corte andámos. Passando quatro ou cinco dias depois do mapa-múndi, nos mandou chamar o Preste e nos mandou dizer que ele queria escrever ao Papa de Roma a que eles chamavam Rumea Negus Lique Papaz, que quer dizer, o Rei de Roma e Cabeça dos Papas, e que lhe fizesse eu o princípio da carta, porquanto eles não tinham de costume escrever, que não sabiam como escreviam ao Papa e que estas cartas eu as havia de levar ao Papa. Respondeu D. Rodrigo embaixador, que nós não viéramos para escrever nem estava entre nós quem escrevesse ao Papa. Eu disse que lhe diria o princípio e daí adiante seguissem o que no coração tinham para lhe escrever ou requerer. […]
(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 - a partir de “Verdadeira Informação sobre a Terra do Preste João das Índias”, Dir. Luís de Albuquerque, Vols. I e II, Lisboa, Alfa, 1989)