Chegando, perguntou o cabeata ao embaixador que queria e donde vinha; respondeu o embaixador que vinha da Índia e trazia embaixada ao Preste João do capitão-mor e governador das Índias por El-Rei de Portugal. Com isto se tornou ao Preste e com estas perguntas e por estas continências veio três vezes. Às duas lhe respondeu o embaixador de maneira e à terceira disse: «Não sei que diga.» O cabeata disse: «Diz o que disseres, que eu o direi a el-rei.» Respondeu o embaixador que ele não daria a embaixada senão a Sua alteza e que outra coisa lhe não mandaria dizer senão que ele e sua companhia lhe mandava beijar as mãos e que muitos davam graças a Deus por lhes cumprir seus desejos em se juntarem cristãos e serem eles os primeiros. Com esta resposta se tornou o cabeata e logo veio com outro recado, ao qual os sobreditos o foram receber como dantes e, chegando a nós, disse que o Preste João mandava que lhe entregasse o que lhe mandava o grão-capitão. Então o embaixador perguntou-lhe o que devia fazer, que cada um dissesse o que lhe parecia. Todos dissemos que nos parecia que se lhe desse o que lhe mandava. Então o embaixador lhe entregou peça por peça e mais quatro fardos de pimenta que eram para nossa despesa. Recebido, tudo foi levado às tendas e tudo logo tornado aos arcos onde nós estávamos e vieram estender os panos de armar que lhe éramos sobre os arcos e assim as outras peças. Tendo tudo em vista da gente, fizeram fazer calada e a justiça-mor da corte fez fala em voz alta, declarando peça por peça as coisas que o capitão-mor mandava ao Preste João e que todos dessem graças ao Senhor Deus por se juntarem os cristãos e se aí havia alguns a que pesasse que chorassem, e os que folgassem que cantassem. E a gente muita que estava junta deram uma grande grita em modo de louvor de Deus e durou grande pedaço e com isto nos despediram e foram-nos aposentar grande tiro de espingarda das tendas do Preste onde já tinham assentado a tenda que nos tinham mandado onde estivéramos, e assim o fato que ela nos ficara.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 - a partir de “Verdadeira Informação sobre a Terra do Preste João das Índias”, Dir. Luís de Albuquerque, Vols. I e II, Lisboa, Alfa, 1989)