Ter 23 Jan 2007
VERDADEIRA INFORMAÇÃO DO PRESTE JOÃO DAS ÍNDIAS (VII)
Publicado por Leonel Vicente em Preste João das Índias - Padre Francisco Álvares
Capítulo LXX
Como o embaixador e nós com ele fomos chamados por mandado do Preste e da ordenança que levámos e do estado em que estava
Na sexta-feira, 20 dias de Outubro, horas de terça, chegou o frade a nós com grande pressa, que nos mandava o Preste João chamar e que levássemos o que trazíamos e assim todo o nosso fato, que o queria ver. Mandou o embaixador carregar aquilo que lhe o capitão-mor mandava e mais não. Nós vestimo-nos e concertámo-nos muito bem, Deus seja louvado, e veio muita gente para ir connosco. Assim viemos em ordenança de onde partimos até uma portada onde vimos as tendas armadas em um grande campo, a saber, certas tendas brancas de armar e diante das brancas, uma muito grande tenda roxa armada, que dizem que arma nas grandes festas ou recebimentos. Diante destas tendas estavam armadas duas ordens de arcos cobertos de pano de algodão branco e roxo, a saber, um arco coberto de roxo e outro de branco, não cobertos, mas rodilhados derredor do arco como estola em pau de cruz. E assim iam estes arcos até ao cabo, seriam bem 20 arcos em cada uma das ordens em largueza e grandeza, eram como arcos pequenos de crasta. Estariam afastados uma ordem da outra um jogo de malhão. Era aqui muita gente junta, a qual era tanta que passariam de vinte mil pessoas. Toda esta gente estava em az e bem arredada de uma e da outra parte. A gente mais limpa estava chegada muito mais perto dos arcos. Entre estes mais limpos estavam muitos cónegos e gente da igreja com carapuções como mitras, mas com uns picos para cima pintados de panos de seda e deles de grã e outras gentes mui bem vestidas. E avante destas gentes bem vestidas estavam quatro cavalos, a saber, dois duma parte de dois da outra, selados e acobertados ricamente com cobertas de brocado. As lâminas ou armas que tinham debaixo não as sei. Tinham estes cavalos diademas nas cabeças altas sobre as orelhas e desciam até aos morsos do freio com grandes penachos com ele. […]
(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 - a partir de “Verdadeira Informação sobre a Terra do Preste João das Índias”, Dir. Luís de Albuquerque, Vols. I e II, Lisboa, Alfa, 1989)