Capítulo LX

Da grandura da serra em que se metem os filhos do Preste João e das guardas dela e como seus reinos se herdam

A maneira que têm no meter destes infantes os reis, até este rei David Preste João, todos tinham cinco, seis mulheres e haviam filhos delas ou das demais e por sua morte dele Preste, herdava o primogénito. Outros dizem que herdava o que lhe parecia mais apto e mais sisudo; outros dizem que herdava o que tinha mais aderência e disto direi o que sei de ouvido a muitos. El-Rei Alexandre, tio deste David, morreu sem haver filho e tinha filhas e foram à serra e tiraram dela Nahu, seu irmão, que foi pai deste David, o qual Nahu da dita serra trouxe filho legítimo que dizem que era gentil mancebo e bom cavaleiro, mas que era forte de condição. Depois que Nahu foi nos reinos, houve outras mulheres das quais houve filho e filhas e por sua morte quiseram fazer rei aquele mais velho que veio da serra com seu pai e alguns disseram que era forte de condição, que trataria mal o povo. Outros disseram que não podia herdar, porque nascera como em cativeiro, fora da herança. Assim, fizeram rei este David que ora reina, que a este tempo era moço de onze anos. O abuna Marcos me disse que ele e a rainha Helena o fizeram rei, porque tinham os grandes todos na mão; assim me parece que, além do primogénito, entra aderência. Outros filhos de Nahu que eram meninos, ficaram com o mais velho que com seu pai viera da serra e todos os tornaram à dita serra e assim fizeram a todos os filhos do Preste desde o tempo daquele rei Abraão até ora. Dizem ser esta serra em cima fria e grande, e mais dizem ser redonda por cima andadura de quinze dias, e parece-me que o será, porque desta parte que é o nosso caminho, caminhámos pelo pé dela dois dias e assim chega ao reino de Amara do Bogramidi, que é sobre o Nilo e é daqui mui longe. Dizem haver em cima ainda desta serra, outras serras mui grandes que fazem vales e dizem haver aí um vale entre duas serras muito fortes, que em nenhuma maneira podem sair dali, porque é fechado com duas portas e que neste vale metem aqueles que são mais chegados ao rei, a saber, que ainda são de seu sangue e que há pouco que lá estão, para que os tenham a melhor recato. Os que já são filhos de filhos e netos a como esquecidos, não estão em tanta guarda e, contudo, geralmente, se guarda toda a serra de grandes guardas e grandes capitães e um quarto de gente que sempre anda na corte é das guardas desta serra e capitães dela. E estes capitães e guardas da serra que estão em corte, pousam apartados sobre si e ninguém chega a eles nem eles a outrem, para nenhum ter razão de saber os segredos da serra. E quando chegam ante a porta do Preste e lhe há-de vir recado ou palavra, toda a gente fazem afastar e todos os outros negócios cessam quando neste falam.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Verdadeira Informação sobre a Terra do Preste João das Índias”, Dir. Luís de Albuquerque, Vols. I e II, Lisboa, Alfa, 1989)