Qui 25 Jan 2007
VERDADEIRA INFORMAÇÃO DO PRESTE JOÃO DAS ÍNDIAS (IX)
Publicado por Leonel Vicente em Preste João das Índias - Padre Francisco Álvares
Capítulo CI
Da prática que o embaixador houve com o Preste sobre alcatifas e de como o Preste nos mandou ter serão e banquetear
Aos 17 dias de Janeiro nos mandou chamar o Preste João e todos fomos com o embaixador, portugueses e frangues e tanto que chegámos perto das tendas, mandou o Preste perguntar que alcatifas de vinte palmos, quanto custavam em Portugal. O embaixador lhe mandou dizer que ele não era mercador nem tão-pouco os que com ele vieram e que não sabia ao certo quanto custariam. E logo tornaram a mandar dizer que uma alcatifa de vinte côvados lhe trouxeram do Cairo por quatro onças de ouro. E o embaixador lhe respondeu que lhe parecia que custaria em Portugal vinte cruzados. E logo vieram com outra pergunta: se haveria em Portugal alcatifas de vinte ou trinta côvados. Mandou-lhe o embaixador dizer que sim. E logo tornaram dizendo que se ele mandasse ouro ao grão-capitão, se lhe mandariam estas alcatifas e se lhe mandariam tantas que alcatifassem toda aquela igreja. Mandou-lhe dizer o embaixador que lhe mandaria para mil igrejas tais como aquela. Ainda outra vez mandou perguntar se lhe mandariam aquelas alcatifas mandando ele o ouro. Responderam-lhe que tudo o que Sua Alteza mandasse pedir a El-Rei de Portugal ou a seu grão-capitão, que tudo lhe mandariam perfeitamente como Sua Alteza bem veria das coisas que dele tivesse necessidade. Cessou das alcatifas e mandou perguntar se haveria em Portugal quem lesse letra arábica e letra abexim. Responderam-lhe que todas as línguas se achavam em Portugal. E logo tornou a mandar dizer que bem cria ele que em Portugal haveria, mas que no mar, quem leria as ditas letras? Responderam-lhe que no mar havia muitos arábios e abexins que de contínuo andavam nas naus de El-Rei de Portugal e que os mouros levavam furtados os abexins de sua terra e os iam vender à Arábia e à Pérsia e a Egipto e à Índia aos portugueses. E os portugueses onde tomavam mouros acertavam tomar entre eles muito abexins e logo os forram e vestem e tratam muito bem, porque sabem que são cristãos e que aí trazíamos Jorge, língua, que sua Alteza bem conhecia, que fora tirado de cativo de poder de um mouro de Ormuz e que ele diria a Sua Alteza como lá fora ter. […]
(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 - a partir de “Verdadeira Informação sobre a Terra do Preste João das Índias”, Dir. Luís de Albuquerque, Vols. I e II, Lisboa, Alfa, 1989)