Capítulo XXII

Do modo do baptismo e circuncisão e como levam os mortos a enterrar

A circuncisão, quem quer lha faz sem nenhuma cerimónia, somente dizem que assim o acham escrito nos livros que Deus mandou circuncidar. E não se espante quem isto ler, que também circundam as fêmeas como machos, o que não era na lei velha. E o baptismo fazem desta maneira: os machos baptizam aos quarenta dias e as fêmeas aos sessenta dias depois de seu nascimento e se antes morrem, vão sem baptismo. E eu por muitas vezes em muitos lugares lhes dizia que faziam grande erro e que iam contra o que diz o evangelho: «Quod natum est ex carne caro est ed quod natum est ex spiritu spiritus est.» Responderam-me por muitas vezes que lhe bastava a fé de sua mãe e a comunhão que recebia em sendo prenhe. Este baptismo fazem na igreja com água que têm em um vaso e a benzem e põem óleo na moleira e nos peitos e espáduas. Não põem crisma nem o têm, nem óleo de extrema-unção. Este ofício de catecismo que fazem, bem me parece tamanho como o romano e ao tempo de deitar a água na criança, fazem desta maneira: um que está como padrinho, toma a criança da mão da mulher que a tem e a levanta por baixo dos braços e a tem pendurada e o clérigo que o baptismo faz, com uma mão tem o vaso e deita a água sobre a criança e com a outra mão a lava toda, dizendo por sua língua as palavras que nós dizemos, a saber: «Eu te baptizo em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo.» […]

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 - a partir de “Verdadeira Informação sobre a Terra do Preste João das Índias”, Dir. Luís de Albuquerque, Vols. I e II, Lisboa, Alfa, 1989)