Qua 17 Jan 2007
VERDADEIRA INFORMAÇÃO DO PRESTE JOÃO DAS ÍNDIAS (III)
Publicado por Leonel Vicente em Preste João das Índias - Padre Francisco ÁlvaresComentários
Capítulo XX
Do lugar de Baruá e das mulheres e tráfego dele e casamentos que se fazem fora da igreja
Neste lugar de Baruá em que estávamos e depois estivemos o mais tempo, haverá 300 fogos e mais e grande parte deles mulheres, porque é aqui como corte por muitos respeitos. A uma é porque nunca daqui sai gente da corte do Preste João e, quantos vêm, não estão sem mulheres. A outra, porque esta é a casa e assento do barnagais e de cote andam em sua casa de 300 em cavalgaduras acima e outros tantos que cada dia vêm a negociar em demandas e poucos estão sem mulheres. E isto faz viverem aqui muitas mulheres mancebas e desde que são velhas têm outro remédio: que há neste lugar cada terça-feira mercado mui grande ou feira em que se ajuntarão 300 ou 400 pessoas e todas as mulheres velhas e algumas mancebas têm medidas para medir pão e sal e vão à feira a medir e ganhar sua vida e dão gasalhado aos que aquele dia ali dormem e também lhe guardam o que lhe fica de vender para a outra feira. E a outra coisa porque há muitas mulheres neste lugar é porque os homens que têm bem de comer logo têm duas, três mulheres e não lhe são defesas pelo rei nem suas justiças, somente pela igreja. Todo o homem que tem mais de uma mulher não entra na igreja nem recebe nenhum sacramento e o têm por excomungado. Um ano e meio pousámos, um meu sobrinho e eu, em casa de um homem que se chamava Ababitai e tinha três mulheres ainda vivas e conhecidas nossas amigas em boa amizade, e diziam que tivera sete, e 30 filhos delas. Ninguém lhas defendia senão a igreja, como dito é, não lhe dar benefícios de sacramentos e agora, antes da nossa partida, apartou de si e da sua convrsação duas mulheres e ficou com uma, a saber, a que houve por derradeiro, que era a mais moça. E já lhe davam os sacramentos e entrava na igreja como qualquer outro e como que não tivera mais de uma mulher; e por esta causa há muitas mulheres neste lugar, porque os homens têm que comer e são como palacianos e tomam duas e três e mais, se lhes apraz. Nesta terra não são fixos os casamentos, porque por qualquer causa se apartam. Eu vi casar e fui em um casamento, o qual não foi na igreja e se fez nesta maneira: num rossio diante umas casas puseram um catre e ali sentaram o noivo e a noiva e vieram aí três clérigos e começaram um cantar em aleluia; então seguiram-no como verso andando estes três clérigos três vezes derredor do catre em que os noivos estavam. Então cortaram ao noivo uma guedelha da cabeça e outra da cabeça da noiva e estas guedelhas molharam em vinho de mel e a guedelha do noivo puseram-na na cabeça da noiva e a da noiva na cabeça do noivo, em aquele lugar de que lhas cortaram e sobre isto lhe deitaram água benta e daí avante festejaram suas festas e bodas. E por noite os meteram em sua casa e daí a um mês não via ninguém a noiva, senão um homem só a que chamam padrinho, que está todo este mês com os noivos. E acabado este mês se vai o homem ou padrinho. E se é mulher honrada, cinco, seis meses não sai de casa nem tira o véu preto diante do rosto e se primeiro emprenha tira o véu. E passados estes meses, posto que não empranhe, tira o véu.
(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Verdadeira Informação sobre a Terra do Preste João das Índias”, Dir. Luís de Albuquerque, Vols. I e II, Lisboa, Alfa, 1989)