Capítulo XII

Onde e como se faz o bolo do sacramento e de uma procissão que fizeram e do aparato com que se diz a missa e do entrar da igreja

O fazer deste bolo do sacramento é desta maneira: a casa em que o fazem em todas as igrejas e mosteiros está, como acima disse, para a parte do Evangelho, fora da igreja e circuito dela, que é como crasta em todas as igrejas e mosteiros no outro circuito de fora que não é coberto e serve de adro. Esta casa têm todas as igrejas e mosteiros e não têm outra coisa senão o para isto necessário, a saber, pilão para pilar trigo, engenho para fazer farinha muito limpa e como se requer para tal auto, porque não fazem este sacramento de farinha nem de trigo em que mulheres ponham mão. Têm panelas para fazer o polme, o qual fazem mais grosso que o nosso. Têm uma fornalha como destilar águas e sobre ela uma folha de ferro e, com algumas igrejas, de cobre e em outras pobres, de barro. Esta folha é redonda e de bom tamanho e metem o fogo debaixo e, como está quente, limpam-na com um pano encerado e deitam-lhe bom golpe de polme e estendem-no com uma colher de pau em tamanha quantidade como querem fazer o bolo, e arredondam-no mui bem. E como é coalhado, tiram-no e põem-no de cabo e fazem outro pela mesma maneira. E este segundo, estando coalhado, tomam o primeiro e deitam-no sobre ele, a saber, do primeiro o que estava para cima, deitam para baixo sobre o outro, fresco com fresco e assim fica o bolo todo um e não fazem senão arredondá-lo e viram-no de uma e de outra parte e andam com ele derredor pela folha, que se coze de uma banda e da outra e da redondeza e por este modo fazem um e quantos querem. E nesta mesma casa estão as passas de que se faz o vinho e engenho de espremer, e nesta mesa casa se faz o pão bento que dão aos sábados, domingos e festas. E quando são festas grandes, assim como o Natal, Páscoa, Nossa Senhora de Agosto, etc., levam este bolo de sacramento com pálio, campainha e cruz devotamente. Antes que entrem com ele na igreja, dão volta derredor dela pelo circuito, que é como crasta; quando não é festa, logo entram e sem palio. Em um sábado antes da Ascensão, fizeram estes frades uma procissão e por ser em terra nova, pareceu-nos muito bem e fizeram-na desta maneira: tomaram cruzes e uma pedra de ara coberta com um pano de seda e levava-a um frade à cabeça que também ia coberto dos ditos panos e levavam livros e campainhas e turíbulos e águas benta e foram-se todos a umas milharadas e cantando e lá fizeram suas devoções e clamores a modo de ladainhas e com esta procissão tornaram ao mosteiro. E perguntámos porque fizeram aquilo, disseram que os bichos lhe comiam o milho e que lhe foram deitar água benta e rogar a Deus que lhos tirasse. O que diz a missa nesta terra não tem outra diferença do diácono e subdiácono nas vestimentas, senão uma estola comprida fendida pelo meio quanto cabe a cabeça e detrás e de diante chega ao chão. Os frades dizem a missa com os capelos na cabeça e os clérigos não trazem capelos e andam tosquiados e assim dizem a missa. E assim os frades como clérigos, todos dizem missa descalços e não entra nenhum calçado na igreja e alegam para isto o que Deus disse a Moisés: «Descalça teus pés que a terra em que estás, santa é.»

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Verdadeira Informação sobre a Terra do Preste João das Índias”, Dir. Luís de Albuquerque, Vols. I e II, Lisboa, Alfa, 1989)