Seg 15 Jan 2007
VERDADEIRA INFORMAÇÃO DO PRESTE JOÃO DAS ÍNDIAS (I)
Publicado por Leonel Vicente em Preste João das Índias - Padre Francisco ÁlvaresComentários
I Parte
Capítulo III
Como o capitão-mor mandou dizer missa na mesquita maior de Maçuá e mandou que se chamasse Santa Maria da Conceição e como mandou ver as coisas do mosteiro de Bisão
Sexta-feira depois das oitavas da Páscoa, 13 dias do dito mês de Abril pela manhã bem cedo, tornaram os ditos frades à praia e mandaram por eles honradamente e o governador com seus capitães e com os frades se passaram à dita ilha de Maçuá e na mesquita maior mandou dizer missa à honra das cinco chagas, por ser sexta-feira e no fim da missa disse o capitão-mor que aquela mesquita se chamasse Santa Maria da Conceição e daí avante dizíamos cada missa na dita mesquita. No fim daquela missa, ao recolhimento das naus, alguns dos frades se foram com Mateus e outros com o capitão-mor e a todos deram panos para seus vestidos, a saber, teadas de algodão grossas, que tal pano vestem eles e assim lhes deram peças de seda para o mosteiro e alguns retábulos e campainhas para o mesmo mosteiro. Estes frades todos traziam cruzes nas mãos porque assim é seu costume e os leigos cruzes pequenas ao pescoço, de pau-preto. A nossa gente geralmente comprava aquelas cruzes que os leigos traziam e as traziam como eles, por ser coisa nova e entre nós não acostumada. Andando estes frades assim entre nós, mandou o capitão-mor um homem por nome Fernão Dias, que sabia aravia, que fosse ver o mosteiro e para mais autoridade e a coisa ser melhor sabida para se escrever a El-Rei nosso Senhor, mandou após o dito Fernão Dias o licenciado Pêro Gomes Teixeira, ouvidor das Índias, os quais, cada um por si, disseram ser coisa grande e boa e porque a Deus Nosso Senhor devíamos dar muitas graças e louvores virmos de tão longas terras e mares por entre tantos inimigos da fé e nossos e acharmos aqui cristãos com mosteiro e casa de oração onde Deus era servido. O dito ouvidor trouxe do dito mosteiro um livro de pergaminho escrito da sua letra para mandar a El-Rei nosso senhor.
(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Verdadeira Informação sobre a Terra do Preste João das Índias”, Dir. Luís de Albuquerque, Vols. I e II, Lisboa, Alfa, 1989)