Qui 11 Jan 2007
CAPITULO XXIV
Como as caravelas chegaram a Lagos, e das razões que Lançarote disse ao Infante
Chegaram as caravelas a Lagos, donde antes partiram, havendo nobre tempo de viagem, que lhe não foi a fortuna menos graciosa na bonança do tempo que lhe antes fora no filhamento da presa; onde as novas chegaram ao Infante, que antes poucas horas se acertara chegar ali, doutras partes donde havia dias que andava.
E como vedes que as gentes são desejosas de saber, uns cometeram de se chegar à ribeira, outros se metiam nos bateis, que achavam amarrados ao longo da praia, e iam receber seus parentes e amigos, de guisa que em breve tempo foi sabido seu bom aqueecimento, com o qual geralmente todos eram alegres. E por aquele dia abastou a esses principaes de beijar a mão ao Infante seu senhor, contando-lhe em breve a soma de seus feitos; e d’aí repousaram, como homens que chegavam a sua terra e a suas casas, onde já sabeis qual seria sua folgança entre suas mulheres e filhos.
E no outro dia Lançarote, como homem que do feito tinha principal cargo, disse ao Infante:
Senhor! Bem sabe a vossa mercê como haveis de haver o quinto destes Mouros e de tudo que ganhamos em aquela terra, onde por serviço de Deus e vosso nos mandastes. E agora estes Mouros, pelo grande tempo que andamos no mar, assim pelo nojo que deveis considerar que terão em seus coraçoes, vendo-se fora da terra de sua natureza e postos em cativeiro, sem havendo algum conhecimento de qual será sua fim; d’aí a usança que não hão de andar em navios; por tudo isto veem assaz mal corregidos e doentes; pelo qual me parece que será bem que de manhã os mandeis tirar das caravelas, e levar àquele campo que está alem da porta da vila, e farão deles cinco partes, segundo o costume, e seja vossa mercê chegardes aí e escolher uma das partes, qual mais vos prouver?
O Infante disse que lhe prazia; e no outro dia muito cedo mandou Lançarote, aos mestres das caravelas, que os tirassem fora e que os levassem àquele campo, onde fizessem suas repartições, segundo antes dissera; pero primeiramente que se em aquilo outra cousa fizesse, levaram em oferta o melhor daqueles Mouros à igreja daquele lugar, e outro pequeno, que depois foi frade de S. Francisco, enviaram a S. Vicente do Cabo, onde sempre viveu como catolico Cristão, sem havendo conhecimento nem sentimento doutra lei senão daquela santa e verdadeira em que todolos Cristãos esperamos nossa salvação. E foram os Mouros desta presa.
(via “Projecto Vercial”)
Fevereiro 10th, 2007 at 16:37
Um estudo interessante e instigante sobre O Infante Dom Henrique encontra-se no livro:
“Dois Estudos Polemicos” (Tucson, 2004), copia na BN de Lisboa.