CAPÍTULO III

Em que conta a geração de que descende o infante dom Henrique

Duas coisas me movem falar em este presente capítulo da geração deste nobre príncipe.

Primeiramente, porque a longa velhice dos tempos afasta da memória o próprio conhecimento das coisas passadas, as quais se a escritura as não representasse ante nossos olhos, cego seria disso de todo nosso saber. E pois, por representação do presente, aos que hão-de vir me assento a escrever; não devo passar calando a nobreza de tão alta geração (inda que este livro por si há-de possuir apartado volume) pois pode acontecer que os que lerem por este [livro] não saberão parte dos outros. Mas isto, porém, será breve, para me não afastar longe de meu propósito.

Segundamente, para que não corramos de todo com tanta virtude a um próprio lugar mas que demos alguma parte aos primeiros antecessores (porque certo é que a nobreza da linhagem bem esguardada por algum seu descendente - muitas vezes por escusar vergonha ou, por alguma maneira, cobrar excelência - constrange a virtude e alevanta o coração para sofrer maiores trabalhos).

Pelo que, haveis de saber que el-rei D. João, que foi o décimo rei em Portugal (aquele que venceu a grande batalha de Aljubarrota e filhou a mui nobre cidade de Ceuta, em terra de África), foi casado com D. Filipa, filha do duque de Alencastro e irmã del-rei D. Henrique de Inglaterra; da qual houve seis filhos lídimos, scilicet, cinco infantes e uma infante que depois foi duquesa de Borgonha (deixo alguns que em sua nova idade fizeram seu fim). Dos quais filhos, este foi o terceiro. E assim, entre os avoengos do pai e da mãe, a geração de este cinge e abraça o mais nobre e mais alto sangue da Cristandade. E foi também irmão del-rei D. Duarte e tio del-rei D. Afonso, reis que, depois da morte del-rei D. João, reinaram em Portugal.

E isto, como disse, toco sob brevidade, porque, se mais largo o declarar quisesse, abalaria tantas matérias, que por qualquer de elas que o necessário [eu] quisesse seguir, faria tamanha detença que tarde tornaria ao primeiro começo.

“Crónica do Descobrimento e Conquista de Guiné”, Gomes Eanes de Zurara

Bibliografia consultada:

- “História de Portugal” (coordenação de José Hermano Saraiva), Vol. III - “A Epopeia dos Descobrimentos - A Dinastia de Avis e a Expansão Ultramarina”, por Newton de Macedo, edição QuidNovi, 2004